Pedem-me que escreva algumas palavras sobre as Tradições Académicas que
preenchiam o quotidiano da nossa vida estudantil nos anos de juventude, nesses
tempos que levámos até à conclusão do curso liceal.
Tentarei pois relembrar este tema já que mesmo não sendo um “praxista
afamado”, pelo menos tentava ser seguidor das regras que as determinavam.
Cumpre assim dizer que a Guarda era de facto um bastião de praxes,
rituais e actividades de índole Académica que a tornavam impar em comparação
com outras cidades onde o limite dos estudos que se podiam atingir era similar.
Daí que, pelo menos aqueles que após a conclusão do curso liceal
optaram por ir estudar para Coimbra, tenham encontrado menos dificuldades na
sua adaptação à praxe coimbrã, porque a vivência da mesma, nas nossas escolas
era já muito similar.
Em primeiro lugar havia o traje Académico.
Já usávamos, no todo, a velha capa e batina, e cumpríamos todos os
rigores a que o bem vestir esta indumentária obrigavam.
E tínhamos “as troupes” que recebiam os caloiros que vinham chegando
das povoações em redor da Guarda, e que, de uma forma suave ajudavam à sua
integração na vida estudantil, já que eram muitas as novidades que o Liceu lhes
aportava.
Tínhamos também as serenatas e a Queima das Fitas dos Finalistas que
iam cumprindo, ano a ano, o “sétimo” de todos os sonhos.
E havia o nosso “Dux Veteranorum”.
A ele competia zelar pelo bom cumprimento das regras e praxes
académicas e resguardar o bom nome da Academia por forma a que essas Tradições
se mantivessem intactas.
O Dux era tido como boémio, e o mais “vadio” de todos nus (ressalve-se
que na nossa terra a palavra “vadio” não tem a mesma conotação pejorativa que,
em muitas regiões do nosso país, pois está associada a um individuo de mau
carácter.
Aliás a população estudantil apenas o via como alguém não cumpridor das
regras da “Sociedade Futrica”, ou seja um pouco rebelde e contestatário.
Nós sabíamos que não era assim, que o seu coração era grande e
albergava “todos os amigos do mundo”. E como lá podiam caber tantos!...
O Dux era o nosso deus, o maior e o melhor de nós todos, aquele que
fazia os impossíveis e até milagres que tanto nos espantavam.
Mas que também podia chorar (porque só os Grandes Homens o sabem fazer)
nas horas boas e más porque tínhamos de passar.
Por isso nos orgulhávamos dele.
Sabíamos que ali estava o “Guardião das Tradições Académicas” e que por
isso as mesmas jamais podiam morrer.
A Escola e os Mestres faziam de nós gente pronta a construir “os sonhos
com que sonhávamos”.
Mas, a Tradição Académica e o nosso Dux, acabavam também por nos moldar
o carácter, nessa plêiade de sentimentos que em nós hão-de perdurar como são a
amizade, o sentido de humanidade e a solidariedade. Por isso, nós, os da
Guarda, continuamos a ter a Nobreza, Orgulho e Grandeza de Alma que fazem tão
rica a nossa Academia, sentimentos esses que, mesmo na voracidade dos tempos,
continuam a ser apanágio de quem ali nasceu e estudou.
José
César Pereira – Finalista 65/66
in «Ó da Guarda» editado no Encontro
Nacional de Mafra.(20-06-1998)